A outra Palestina
31.08.2010 às 10h29
A Palestina vive uma guerra civil larvar, mas os media ignoram este facto. O Hamas e a Autoridade Palestiniana adiam ad eternum as eleições, mas os media ignoram o facto. Porquê?
I. Na narrativa dos media europeus (e portugueses), a Palestina só aparece quando um grupo de palestinianos troca tiros com o exército israelita. Esta é a Palestina dos picos mediáticos. Porém, existe outra Palestina, mais constante, mais corrente, a Palestina do dia-a-dia. Sucede que esta Palestina não aparece nos nossos media. Mas convém acompanhar a Palestina durante os 350 dias do ano em que não há notícias sobre tanques israelitas a contra-atacar (contra-atacar).
II. Nessa Palestina do dia-a-dia, a Fatah e o Hamas vivem uma guerra civil larvar, e o Hamas até ataca campos da ONU. Nessa Palestina quotidiana, Salam Fayyad (Cisjordânia) e Ismail Haniyeh (Gaza) controlam a política com punho de ferro, adiando para as calendas gregas as eleições que já deviam ter acontecido. Aliás, a Autoridade Palestiniana já anulou três eleições no último ano, e, não por acaso, os mandatos legislativos e autárquicos já expiraram. Ou seja, a moderada AP está a construir outro estado autoritário no Médio Oriente. Não é totalitário como a Gaza do Hamas. É só autoritário. É uma espécie de islamismo on the rocks. Sob o patrocínio dos governos europeus (que financiam a Autoridade Palestiniana), Fayyad está a construir um estado autoritário e policial, com um evidente desprezo pelo parlamento e pelos jornalistas (jornalistas independentes, que não seguem a linha oficial, são silenciados).
III. E, como é óbvio, este autoritarismo é "legitimado" com manifestações e actos contra Israel. Enquanto cria um estado autoritário contra as liberdades dos palestinianos, Fayyad faz discursos e paradas anti-Israel. Moral da história: Telavive é o fantasma externo que legitima estes excessos internos; estes pequenos ditadores palestinianos precisam do estado de guerra com Israel para se perpetuarem no poder.
IV. Ora, deste lado do Mediterrâneo, os media não falam desta Palestina quotidiana. Deste lado do Mediterrâneo, a malta só se lembra da Palestina quando troveja em hebraico. Por que razão a Palestina não interessa nos 350 dias em que os trovões israelitas estão calados?