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Expresso

Luz e lata

Manoel de Oliveira e José Socrates: dois homens e uma primavera

Fátima Pinheiro

 

Análise política? Há quem a faça. Eu não sei. Eu é mais "Non ou a Vã Glória de mandar". Tudo me interessa e escrevo. Como fazia Hannah Arendt, não é para influenciar mas porque a curiosidade tomou conta de mim, desde muito nova. Tirei filosofia. Hoje ponho aqui on line que estimo a preocupação dos media pelo homem que canta 104. Entra no hospital, sai do hospital. E outra vez sai e entra, e entra e sai. Melhor é saber que foi há dias ao Teatro Nacional de S. João, para ver Luis Miguel Cintra, que apresentou, até ontem, a peça "Os Desastres do Amor" (e uma outra de Paul Claudel). E que lá esteve tão vivo como a sua alegria de viver de sempre - notas do fundador da Cornucópia no discurso dos 100 anos do homem de "Aniki Bóbó". Este emblemático filme foi recentemente notado nos media (fez 70 anos) e a última vez que o vi foi na abertura deste ano parlamentar, na escadaria da AR. É dos mais aplaudidos, mostra o Porto e o mundo dos sentimentos com uma beleza inestimável. E não adormece. Mas o homem do "Gebo e da Sombra" (2012) (o seu recente filme, apresentado no Parlamento antes de irmos para a esplanada de S. Bento) sempre sublinhou que nos filmes o que conta é o argumento, e não a duração; que "públicos", só os urinóis e que o cinema não existe, mas sim as cadeiras. Para mim.

Nesta semana há, como sempre, muitos argumentos. Primavera, embora Neruda dela prescinda. Páscoa. Novo Vaticano. Longa ou curta metragem do OE. Provavelmente novas descobertas sobre quem era mesmo, mesmo (agora é que é!) Jesus - aparecem quase sempre nestas alturas nas capas que aí estão para chegar até domingo; e algumas são obras de arte. A Primavera de José Sócrates na RTP1. Etc.

Hoje - dia em que a Igreja do Papa Francisco celebra a Anunciação a Maria e a Universidade de Lisboa está de parabéns pelo que logo leva à Igreja da Graça às 21h - lembro que Oliveira nos dá no "Acto da Primavera" (1963) um tiro de documentário: a celebração popular da Paixão de Cristo, rodado em Trás-os-Montes, em 1962. Cintra refere abundantemente que o cineasta repete quase sempre, nas suas intervenções, as palavras centrais desta obra-prima: "No princípio era o Verbo e o Verbo se fez carne". Especial Skyfall. Para que todos os homens vejam, repetem as imagens desta obra de arte.

"A Primavera é a ressurreição. As flores morrem no Inverno e ressuscitam na Primavera. Assim, a ideia é colocada nas flores, na ressurreição", sublinhou o realizador há dois anos, em Bragança, a propósito do seu pioneiro auto (o "Evangelho Segundo Mateus", de Pasolini, é de 1964, um ano depois do evangelho da Curalha, aldeia onde o Acto da Primavera se passa em directo). E é impossível dissociar as cenas finais deste documentário, das de outras (também finais) do seu "Vale Abraão" (1993), nas quais Ema caminha por entre as flores da Primavera, no mais que provável intuito de acabar com a sua vida: a que levava, e não lhe enchia o coração.

"O cinema é o espelho da vida." (Manoel de Oliveira, 12 de Maio de 2012, na sua "bela metragem" do CCB ao mundo da cultura, aquando da visita de Bento XVI).

Esta semana Oliveira é argumento. Chato? Longo? Eu sei que o "Amor de Perdição" (1979), apresentado pela primeira vez, e em episódios, na pequena da TV, cá o ia matando. Ele vai muito, muito, à frente. Uma imaculada realização. É preciso começar de novo, como diz a canção, econtar comigo. Como na vida, ninguém ressuscita sem que o deseje e o queira seriamente. Ou Platão: cada escravo agrilhoado na Caverna, se quer aproveitar o sol que lá fora é a Luz, tem que quebrar as correntes, levantar-se da "cadeira", virar a cabeça por si próprio e ser levado pelo trilho que desemboca numa cegueira que vai deixando ver. Como? Actuando o olho. É o que fazem os grandes, ou seja, os simples. Carpe diem na luz que à lata dá forma! Vai valer a pena porque enche o coração a quem o solta, ou desenterra. Numa Primavera que é Destino de todos.