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Moor Mother, do punk para o palco principal do jazz em Lisboa. “A História de Portugal é rica, mas não está a ser contada na sua plenitude”

Moor Mother

À frente dos Irreversible Entanglements, a poeta e ativista Moor Mother irá este sábado abrir a programação de 2022 do Jazz em Agosto. Domingo, volta para uma segunda performance ao lado da flautista Nicole Mitchell. Conversámos com a artista norte-americana sobre jazz contemporâneo, hip-hop e o passado colonial português

30 julho 2022 9:40

À frente dos Irreversible Entanglements, coletivo de free jazz político que o ano passado lançou Open The Gates, Moor Mother irá esta noite abrir a programação 2022 do jazz em Agosto, festival que acontece na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e que este ano encontra nas cidades de Chicago, Nova Iorque e Lisboa as coordenadas para um dos mais desafiantes cartazes dos últimos anos. A poeta e ativista, Camae Ayewa de seu verdadeiro nome, tem dupla presença no cartaz já que além do concerto de abertura tem prevista uma segunda performance (amanhã, no Auditório 2 da Fundação, pelas 18:30) ao lado da flautista Nicole Mitchell.

Moor Mother tem sido nos últimos anos presença recorrente nas listas de melhores discos publicados na imprensa musical internacional, estatuto que tem alcançado com trabalhos lançados em grupo ou em diferentes projetos colaborativos, incluindo com rappers como Billy Woods, membro da reverenciada dupla Armand Hammer. Moor Mother tem no entanto vários outros projetos em vista, tal como nos revela numa intensa conversa.

Os Irreversible Entanglements abrem a edição deste ano do Jazz em Agosto, o mais importante festival de jazz em Portugal. Enquadra-se numa mudança do foco do festival para uma programação mais contemporânea e talvez experimental. O que representam para si estes eventos na Europa?
Bem, eu gosto realmente de Portugal. E gosto porque a minha experiência aí nos meios mais underground é muito semelhante à que eu já trazia de Filadélfia. Vários dos concertos que fiz aí aconteceram na ZDB (Zé dos Bois), em Lisboa. Adoro aquele lugar que me faz mesmo sentir como se estivesse em casa. Mas claro que é bom ter o reconhecimento de uma plataforma maior. Se isso significa uma mudança no festival, talvez eu não goste tanto de ouvir isso. Prefiro pensar que nos encaixamos seja em que conceito for. Se é de jazz que estamos a falar, então nós fazemos sentido, seja qual for a nuance do programa. Se nos chamaram porque andam em busca de uma nova direção, isso já não me agrada tanto. O que eu sinto é que nós deveríamos sempre ser considerados para este tipo de coisa. Esta música vive de quem a desafia, de quem a faz avançar. E nós gostamos tanto desta música que queremos fazê-la avançar. Não a estamos a abandonar, estamos a levá-la para diante. Nós somos estudantes da História. Nós somos os amantes e os historiadores desta música talvez mais até do que muitas das pessoas que são sempre chamadas para esse tipo de eventos.

Ao chamar uma banda como os Irreversible Entanglements, um festival como o Jazz em Agosto não está já a pensar no futuro?
Isso é algo que atravessa esta coisa a que chamamos jazz. As grandes instituições que toda a gente reverencia quando se trata de jazz... para mim o que muitas delas fazem é tão aborrecido. O que é que significa ser um artista “estabelecido” nos domínios do jazz? Nós já estamos juntos há uns seis anos, editámos três álbuns. Será que é necessário sermos como o Herbie Hancock e andar aqui há 20 ou 40 anos? Quanto tempo demora até sermos um nome “estabelecido” nesta coisa chamada jazz pelas pessoas que funcionam como “gatekeepers” desta cultura? Quem é que merece ser visto no jazz? Só as lendas? Seis anos não são suficientes?

Na verdade, um ano e um disco deveria bastar se o que se está a fazer é novo e desafiante...
Mas essa é outra questão: qual a editora que te está a lançar? É que muitas vezes essa visibilidade deriva do poder da editora e não necessariamente do poder da música. Não sei quando é que as pessoas repararam em nós, mas quando lançámos o nosso álbum homónimo (Irreversible Entanglements, International Anthem, 2017) eu acho que mudámos muita coisa: de repente começou-se a ouvir mais poesia nos discos, começaram a aparecer discursos mais políticos, sinto mesmo que alterámos o curso das coisas. Sinto-o quando conheço lendas, quando me cruzo com gente que vai a concertos desde 1964 – essas pessoas falam comigo e dizem-me como era dantes. Sou alguém que nunca está satisfeita e não ando por aí emproada. Em termos sónicos, não estou ainda satisfeita com o lugar que ocupo. Sei que vou na direção certa, mas ainda não estou lá. Isso não me impede de ver que o nosso trabalho provocou uma mudança, causou um impacto. Portanto se o festival está a fazer alguma mudança, talvez isso tenha a ver com a mensagem que querem enviar. Talvez seja essa a mudança, dar lugar a discursos mais ativistas.

Para este concerto em particular haverá alguma mudança na formação da banda?
Não. Quer dizer, eu também vou tocar em duo com a Nicole Mitchell. Nós já trabalhámos com a Nicole muitas vezes, não sei em que dia é que ela chega a Lisboa, mas, de repente, se ela chegar a tempo do concerto dos Irreversible Entanglements talvez dê para fazermos alguma coisa juntos. Estamos sempre abertos a estas hipóteses. Nunca há coisas firmes connosco. Gostamos de sentir a cidade, o espaço. Esta vai ser a nossa primeira vez fora da ZDB e, portanto, temos que ver como nos sentimos, que mensagem queremos transmitir a uma audiência mais vasta.

Tcheser Holmes, Aquilles Navarro, Luke Stewart e Keir Neuringer... Nos discos sente-se que há uma sinergia particular entre todos vocês.
Bem, eu e o Luke vimos ambos da cena punk de Maryland e de Filadélfia e isso colocou-nos no mesmo cumprimento de onda. Eu e o Keir trabalhámos muito em duo, em Filadélfia. Eu fazia coisas com caixas de ritmos, ele com piano eléctrico, misturávamos muita coisa e conseguíamos ter momentos muito bons. Depois quando encontrámos o Aquilles e o Tcheser, dois incríveis músicos de Nova Iorque, as nossas cabeças explodiram porque percebemos que andávamos todos a trabalhar no seio da mesma tradição já há muito tempo. Quando fizemos a nossa primeira sessão, os trabalhos prolongaram-se por seis horas. Quando fizemos a primeira pausa, lembro-me bem de dizer: “Bem, será óptimo tocar num daqueles festivais de jazz mais cool”. Ainda nem imaginava quão longe seríamos capazes de ir, mas já sabia que me queria apresentar nos mesmos palcos em que tantos dos nossos heróis já tinham inovado. Não queremos apenas religar-nos ao que aconteceu em 1949 ou 1950, queremos ir até aos tempos do Miles Davis elétrico. Não queremos só religar-nos ao tipo de coisas em que se pensa quando se pensa em “jazz”, mas interessam-nos as ideias da música livre, da música do futuro, música que honra o passado e, para citar os Art Ensemble of Chicago, música que vai da ancestralidade ao futuro. Vamos continuar a mover-nos, tornando-nos mais elétricos, mais experimentais. Não sentimos que temos que ficar sempre no mesmo lugar, antes que devemos fazer o que nos apetece em cada momento. Ainda temos muito espaço para nos movermos e isso é que é incrível ao trabalhar com eles. Não há limites.

No dia seguinte ao concerto de abertura do Jazz em Agosto com os Irreversible Entanglements tocará em duo com a Nicole Mitchell. Offering, o álbum que lançou com ela, soa como a banda sonora para uma viagem a um mundo novo, situado algures entre o sonho e o pesadelo. Escreve especificamente para projetos diferentes ou quando entra em estúdio, seja qual for o contexto, limita-se a abrir o seu caderno de poemas e partir daí mesmo?
Bem, nesse caso particular o que eu abri mesmo foi o coração. Por vezes, quando surge a oportunidade de trabalhar com gente que é realmente inspiradora, já se tem tudo o que é necessário, entende? E isso é raro, comigo aconteceu apenas um par de vezes. Com a Nicole Mitchell, aconteceu com o Lonnie Holley...

Que já pudemos ver ao vivo em Portugal.
Espere só até ouvir o que fizemos juntos. É mesmo incrível.

E por falar em poemas, tem colaborado com alguns dos meus rappers favoritos do presente, como Billy Woods ou Pink Siifu. O hip hop underground tem gerado discos muito bons nos últimos tempos.
Eu sempre me vi como uma MC, foi a primeira coisa que fiz, o rap foi o meu primeiro amor. Foi isso que me levou ao Bob Marley, ao punk rock, à folk, aos blues. Fico sempre muito grata quando surge a oportunidade de expressar este meu lado. Mas as pessoas só agora começam a ter uma ideia dos meus estilos de rap, porque eu tenho outros flows que quero apresentar. Sei que ainda tenho muito para fazer nesse campo. Não posso dizer que o rap esteja nas minhas prioridades, mas gosto muito de explorar esse meu lado porque rimei durante muito tempo. Muitas pessoas só conhecem aquela cena mais intensa de Moor Mother, mas há um lado mais bem humorado que eu também tenho e que expresso com diferentes flows. Pode ser que ainda consiga mostrar esse outro lado.

Nesse campo do hip hop, quem anda aí com quem gostasse de colaborar?
Bem, tenho feito alguns contactos, mas há uma pessoa em particular – a Georgia Anne Muldrow – com quem gostava de trabalhar. Ela é uma grande produtora, rapper e cantora. Às vezes podemos dizer de uma pessoa que ela é uma ótima cantora, ou uma grande rapper. Mas a Georgia é uma artista completa. Adoraria fazer um tema hip hop com ela.

Tem um novo álbum, acabado de lançar, Jazz Codes. Neste disco, além de alguns dos seus companheiros dos Irreversible Entanglements colaboram também várias outras pessoas importantes, como Jason Moran, por exemplo. Fazer música é também uma forma de erguer comunidades?
Sem dúvida. E como andamos tanto na estrada acabamos por conhecer muita gente fantástica. Foi-me dada a oportunidade de tocar ao vivo no Sonic City, um evento curado pelo Thurston Moore, e dei por mim no mesmo cartaz que o Joe McPhee. Pensei, “bem, o Joe McPhee é tão cool”. E nunca me passaria pela cabeça que ele pensasse que eu sou cool, mas acabámos a falar de poesia e das coisas que ainda tencionamos fazer. São coisas que guardo no coração e que não esqueço, foi um momento importante para mim. Sempre que me deparo com um momento destes, mais especial, vou sempre fazer um contacto e ver o que pode acontecer. Nunca viro as costas a isso. Adoro conhecer pessoas na vida real. Gosto mais das pessoas do que da sua música. Isto é algo que me faz sentir muita gratidão: vir de Filadélfia e da cena punk, habituada a ter mosh pits em todos os meus concertos, e depois viajar pelo mundo e crescer e nunca saber quem me vai ligar a seguir. Fui contactada por tantas pessoas que encaro como lendas. Sinto-me honrada e vejo-me como uma estudante. Foi o que o Roscoe Michell me disse. Guardo isso e agradeço por isso mesmo, por ser capaz de tentar perceber como funcionam as coisas sem temer cometer erros. Até porque os erros podem ser bem fixes.

De disco para disco o som da sua voz tem mudado, tem ficado mais aberto às suas próprias nuances. Vê a sua voz como um instrumento ou apenas uma ferramenta para debitar as suas ideias?
Vejo-a definitivamente como um instrumento. Um instrumento em que quero ficar cada vez melhor. Não é melhor no sentido “bom e mau”, mas melhor no sentido de chegar mais perto de onde eu quero ir: quero fazer mais blues, quero cantar mais, quero fazer mais vocalizações sem palavras, quero gritar mais (risos). Quero fazer todas estas coisas e quero, como explicava antes, permitir que todas as partes que tenho dentro de mim se possam expressar. Por vezes, enquanto Moor Mother, posso ficar demasiado focada numa direção e esquecer todos os estilos e toda a música com que cresci. Por isso vou começar a ter lições de voz para fortalecer este meu instrumento, a minha voz.

“Não sou uma poeta do juízo final”

Portugal começa a reconhecer os horrores do passado colonial. Há neste momento um debate que decorre entre instituições, a academia e o público em geral sobre o racismo ou o nosso papel no tráfico de escravos. O caminho a percorrer ainda será longo, mas a música tem tido uma palavra a dizer sobre estas questões. No seu caso, acha que a sua música também tem uma componente educativa? Vê-a também como uma forma de protesto? Ou será mais terapia?
Eu poderia descrever-me como uma amante de História. E isso é algo que traz muitos sentimentos desconfortáveis às pessoas, a História. Lembro-me de ter tocado algures perto do Porto e nesse local havia muitos barcos, teria havido ali, segundo me contaram, uma família antiga com ligação ao tráfico de escravos e eu fiquei muito interessada naquilo. Pensei: “porque é que ninguém está a fazer algo com isto? Esta história deveria estar escrita ao longo destas margens, contando o que aqui se passou”. Lembro-me de estar ali a olhar para os barcos e a pensar no que deveria dizer nessa noite sobre aquilo. A História em Portugal é tão rica, mas penso que não está a ser contada na sua plenitude. Gostaria que houvesse mais eventos deste género em locais com esta carga horrífica, porque isso é muito importante. Lembro-me de ter ficado num hotel no Porto em que havia uma pintura de uma batalha entre os mouros e os cristãos. E eu pensei: “bem, é mesmo suposto eu estar aqui, tenho que me ligar a isto e contar esta história”. Isso para mim é uma constante, acontece sempre nas igrejas a que vou em Portugal: quando estes lugares têm este tipo de riqueza, há que mergulhar. O meu trabalho como Moor Mother é acerca disso, das mães, dos lugares a que elas vão em todo o mundo. Por isso o meu trabalho vai sempre fazer-se destas histórias. O que acontece às mulheres será sempre político. Mas por alguma razão estranha este não é um assunto muito popular. Eu disse algo sobre violência doméstica num disco e tive logo que ouvir: “ah, lá vem ela com a violência doméstica, vai estragar a canção”. Porque é que algo que acontece a cada nove segundos vai estragar uma canção? Torna-se algo político, mas na verdade é apenas algo de que deveríamos falar. Acontece, é natural, porque é que não falamos sobre o que acontece a toda a hora? O nosso trabalho para o futuro é ver como estes ciclos se repetem, falar sobre isso, de forma a podermos projetar um melhor futuro a partir das conclusões. Mas nós ignoramos esses ciclos e não discutimos o que deveria ser discutido. Esse é o trabalho que temos feito com o projeto Black Quantum Futurism [com Rasheedah Phillips], tentar desmontar esta ideia de tempo. As pessoas tomam a palavra “futuro” pela rama, dizem-nos: “isto é um festival para o futuro”. Mas depois não dedicam energia a tentar perceber como olhamos para o tempo, como o tempo tem sido opressivo, como nos isolamos da História.

E ainda haverá tempo para gerar reais mudanças?
Entendo a ideia de urgência, mas tempo é algo que não nos falta. Estamos apenas a dirigir-nos para o princípio, por isso temos muito tempo. Não sou uma poeta do juízo final. Penso que foi a Pitchfork que me chamou “poeta do apocalipse”... Penso que se a palavra “apocalipse” significar “eterna repetição” então, sim, sou uma poeta do apocalipse. As pessoas acreditam que vem aí uma bola de fogo que nos vai destruir a todos, mas eu não acredito nisso. Sou uma poeta do amar aquilo por que passámos e não temer dar os passos necessários.