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“Isto dá-me saúde mental. É a minha terapia”: o reencontro do público com os festivais e com os Ornatos Violeta na Alfândega do Porto

North Festival 2022

nfactos/pedro granadeiro

O North Festival marcou o regresso, três anos depois, dos festivais de verão. Na primeira noite, os hinos dos Ornatos Violeta foram entoados por milhares de festivaleiros que atracaram na Alfândega do Porto. A crónica e as imagens de um dia vivido “sem medo de olhar para trás”

27 maio 2022 10:06

A romaria de milhares de melómanos aos festivais de verão está de regresso e a bússola aponta para o North Festival, o primeiro evento musical de grande escala ao ar livre desde 2019. A experiência é semelhante ao de entrar numa máquina de tempo, em busca do tempo perdido e de todos os momentos de partilha negados pela pandemia.

“É ótimo podermos estar juntos, sem máscaras e sem medos”: quem o diz, no palco, é Quim Albergaria, um dos dois bateristas dos PAUS, juntamente com Hélio Morais, acompanhados por Makoto Yagyu no baixo e Fábio Jevelim nas teclas. Antes deles, na Alfândega do Porto, já Paraguaii e S.Pedro tinham atuado esta quinta-feira, mas o público aguardava, em frenesim, para ver os concertos de ZEN, Linda Martini e, sobretudo, o reencontro dos Ornatos Violeta, esse nome repetido ao expoente da loucura como principal atrativo do cartaz com uma casta 100% nacional no primeiro dos três dias.

A última vez que Márcia Duarte vivenciou todas as emoções à flor da pele suscitadas por um festival foi em 2019, no Paredes de Coura. “Já sentia muita falta deste ambiente, desta energia, desta liberdade”, conta a jovem de 27 anos ao Expresso. Foi por isso que fez a viagem de Setúbal para o Porto, acompanhada por André Paínha, para quem “estar novamente ao ar livre, a ouvir boa música, com álcool na mão e sem máscara na cara é perfeito”. No caso dele, veio atraído “pelo cartaz, pelo rock português, que é uma coisa que não há muito nos festivais” e, como tal, “não podia perder um dia assim”.

João veio ainda de mais longe, de Northampton, no Reino Unido, onde vive há seis anos. É fisioterapeuta, mas a sua própria terapia veio fazê-la no North Festival. “Os efeitos da pandemia foram nefastos, mas o convívio está de volta e felizmente estamos livres. Sinto que sou novamente um ser humano”, enaltece, visivelmente animado. “Isto dá-me saúde mental. É a minha terapia”, afirma o festivaleiro de 32 anos, sem máscara e “cheio de saudades de usufruir do bom tempo, da boa música e dessa coisa tão portuguesa: o convívio”. Para João Pereira, “pensar no verão é sinónimo de festivais”, um “ambiente de amizade” que, defende, “traz muito mais vida às pessoas”.

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North Fest: Zen
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North Fest: Zen

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North Fest: PAUS
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North Fest: Paraguaii
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North Fest: Paraguaii

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North Fest. PAUS
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Quem também por ali está, mais discreto, é o humorista Diogo Batáguas. “Eu sou um senhor de idade preso num corpo de 37 anos. Já não tenho muita paciência para grandes multidões e barulhos”, confidencia, entre risos, o comediante ao Expresso. Aproveitou a viagem ao Porto, onde vai realizar dois espetáculos no Teatro Sá da Bandeira, para ver Ornatos: “é sempre bacano!” Ainda se está a “habituar ao fim das restrições”, “no início até causou alguma estranheza”, mas reconhece que “é muito bom vir a um espetáculo e ver as pessoas tranquilas, a curtir com algum conforto”, até porque, acrescenta, “voltar à normalidade não é só tirar as máscaras, é mais do que isso, é poder ir a concertos e espetáculos, é viver sem medo de olhar para trás quando alguém tosse”.

A presença de Salomé Bessa no North Festival “é também uma forma de ajudar os artistas”. Para o namorado, Tiago Ferreira, “é importantíssimo ter este contacto humano e a possibilidade de socializar ao ar livre, de beber uns copos, ouvir música e conhecer pessoas que partilham dos mesmos gostos”. A linguagem universal da música, diz ele, “aproxima as pessoas e é essencial para a saúde mental”.

Ana Correia e Hugo Brites vieram os três. Sim, os três, leu bem. Não é erro, é que na barriga da Ana está tudo certo com o bebé. Pelo filho que está a caminho, vieram também acompanhados pelas máscaras faciais. “Optámos por usar máscara porque achámos que essa medida adicional pode contribuir para minimizar os riscos, ainda para mais porque estou grávida”, explica a festivaleira de 31 anos. “É melhor assim: poder usufruir da experiência, mas com alguma cautela”, advoga. Já Hugo admite que “depois de tanto tempo privados deste tipo de eventos, agora, ao ver multidão por todos os lados, com a maioria das pessoas sem máscara, ainda faz um pouco de confusão”. Além disso, nota, “os casos estão a subir e há uma nova vaga”.

Um caso sério para o casal é a devoção por Ornatos Violeta. “Não podia perder Ornatos, já tinha o bilhete comprado desde o ano passado, quando o festival acabou por não se realizar. Mas nem pensei em pedir reembolso, tinha de esperar por esta data e valeu muito a pena. Foi incrível”, descreve Ana Correia, após a atuação da banda formada por Manel Cruz, Peixe, Nuno Prata, Elísio Donas e Kinorm.

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North Fest: Ornatos Violeta
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North Fest: Ornatos Violeta

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North Fest: Ornatos Violeta
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Os Ornatos Violeta reencontraram-se em palco no primeiro dia do North Festival, onde foram cabeças de cartaz
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Os Ornatos Violeta reencontraram-se em palco no primeiro dia do North Festival, onde foram cabeças de cartaz

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Ninguém sabia do baixista Nuno Prata na hora de tirar a fotografia de família, mas a criatividade e o traço de Manel Cruz resolveram o problema num minuto
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Ninguém sabia do baixista Nuno Prata na hora de tirar a fotografia de família, mas a criatividade e o traço de Manel Cruz resolveram o problema num minuto

nfactos/pedro granadeiro

Antes do concerto, no camarim, os Ornatos Violeta contavam ao Expresso que tocar na Alfândega do Porto tem um significado especial. “Este sítio diz-nos muito, porque nós crescemos na Ribeira, na altura em que ainda não era invadida por turistas. Era aqui que íamos sair à noite quando éramos putos e o ‘Punk Moda Funk’ surgiu de uma noite de copos no [bar] Aniki Bobó”, desvelou o guitarrista Peixe.

Com 30 anos de carreira e apesar de já não editarem música há mais de 20, os Ornatos Violeta continuam a arrastar multidões que entoam quase todas letras do princípio ao fim. Na noite de quinta, no Porto, abriram com ‘Capitão Romance’, tendo percorrido vários momentos aguardados, como ‘Ouvi Dizer’, ‘Notícias do Fundo’, ‘Há-de Encarnar’, ‘Devagar’, ‘Deixa Morrer’ e ‘Chaga’, esta última a rematar o concerto antes dos regressos ao palco para um duplo encore.

“O carinho que passados 30 anos ainda recebemos é incrível e completamente inesperado. Queria muita coisa da vida e sempre desejei ser músico, mas nunca esperei uma coisa destas. O património afetivo que esta banda gerou não tem preço e ninguém nos tira”, frisa o teclista Elísio Donas. Já para Manuel Cruz estes reencontros em palco “são como rever um familiar: nem se sabe porque é que se gosta dele, simplesmente gosta-se”.

É caso para dizer que o amor é isto e nada mais.