ARQUIVO Sabores

Rooibos, o chá da eterna juventude

9 outubro 2009 9:00

Alexandra Simões de Abreu (www.expresso.pt)

Pode não ser o elixir da juventude mas anda lá perto. O chá vermelho é rico em antioxidantes naturais, capazes de prevenir e combater o envelhecimento. Em Portugal já o podemos beber em forma de expresso.

9 outubro 2009 9:00

Alexandra Simões de Abreu (www.expresso.pt)

A manhã acordou com o céu azul e intensos raios de sol anunciando a chegada da Primavera. Estamos no Cabo Ocidental da África do Sul, mais concretamente nas montanhas Cederberg, o único lugar no mundo onde cresce o chá vermelho, conhecido por rooibos. Charl e Leonie van der Merwe recebem-nos com um forte aperto de mão e sorriso tímido na sua herdade, a Welbedacht Farm. Ambos na casa dos 60 anos, são um típico casal de africaners (descendentes dos holandeses) que prefere o campo à cidade.

A herdade estende-se em parte no vale Biedouw e esta é a segunda vez que os van der Merwe aceitam abrir as portas dos seus 4000 hectares a 'estranhos' (ou jornalistas), para mostrar como produzem este chá com características antioxidantes.

Charl não perde tempo e aponta-nos o caminho. Não é um homem muito alto, mas tem mãos grandes e rudes de quem trabalha a terra diariamente. Na cabeça traz pousado um chapéu simples, de tecido, que ajuda a esconder ainda mais os olhos pequenos protegidos atrás de um par de lentes escurecidas pelo sol. Assim que entramos num dos armazéns somos invadidos por um aroma intenso mas ao mesmo tempo suave e doce, imediatamente reconhecido por João Nabeiro, que em representação da Delta visita também pela primeira vez o local, de onde parte o chá que a sua empresa conseguiu transformar em cápsula de expresso.

Folhas na rega

Ao fundo do armazém um grupo de quatro homens retira do chão molhos de rooibos enrolados em sacas, que espalham em cima de uma mesa corrida. Apesar de se chamar chá vermelho, os ramos são verdes, fazendo lembrar as agulhas de um pinheiro. Na ponta da mesa, o filho mais novo de Charl e Leonie encarrega-se de fazer entrar os ramos na máquina de corte, sob o olhar atento do irmão mais velho. Ambos vestem um fato de trabalho azul, diferenciando-se dos restantes empregados pela cor da pele e pelo chapéu de cowboy, em pele.

Depois de triturado, o chá voa para a caixa do tractor que o irá colocar numa eira em cimento, para secar. Esta não é a altura do ano mais indicada para o fazer, uma vez que o processo de secagem é feito no Verão, mas Charl diz a um dos empregados para nos mostrar como se faz. As folhas são então amontoadas numa linha com cerca de 20 metros de comprimento e 20/30 cm de altura, que é regada com água logo de seguida. É aí que o chá vai fermentar entre 8 a 24 horas. "Normalmente no dia seguinte de manhã, já está bom para ser espalhado, ficando a secar ao sol durante mais meio-dia", explica-nos Charl, fazendo um esforço para falar em inglês, deixando de lado a sua língua mãe, o africaner. É neste processo de fermentação que o rooibos se transforma passando naturalmente do verde a uma cor vermelhoacastanhada, ao mesmo tempo que ganha o gosto frutado e adocicado que o caracteriza.

Durante três meses é este o trabalho, de sol a sol, da família van der Merwe e de mais oito trabalhadores permanentes da herdade de onde saem todos os anos 120 toneladas de rooibos puro para vários cantos do mundo.

Enquanto observamos o tractor a espalhar por todo a eira aquela linha de chá, os van der Merwe vão explicando que dos 4000 hectares que possuem apenas 10% é ocupado com a plantação do rooibos, e destes só metade está activo ficando os restantes 200 hectares em repouso. Isto porque quando é plantado, entre Maio e Junho, o rooibos precisa de pelo menos três anos para atingir o tamanho - entre 1 a 2 metros - e sabor ideais. "Algum cortamos com um ou dois anos para misturar, numa pequena percentagem com o de três anos que é o melhor", esclarece Leonie.

Rooibos em expresso

Depois de nos mostrar como a erva passa do seu estado selvagem a pequeninas folhas prontas para a infusão, a família van der Merwe convida-nos a voltar no dia seguinte para visitarmos as suas plantações de rooibos que ficam no topo da montanha a cerca de 960 metros de altitude. Antes das despedidas do dia, ainda há tempo para nos servirem empadas, queques e tartes caseiras e provar o novo Red Q, da Delta, o rooibos em formato expresso. "É mais forte, mas gostei. Ainda consegui encontrar o sabor do nosso chá", garante Charl que entretanto abre uma cápsula curioso para ver como é que a família Nabeiro/marca portuguesa conseguiu transformar as minúsculas folhas de rooibos num pó prensado, que quando pinga na chávena toma o aspecto de uma tradicional bica, com espuma e tudo.

Na manhã seguinte regressamos a Welbedacht. À nossa espera está o clã dos van der Merwe: Charl e Leonie, os dois rapazes e a filha adolescente. Durante meia hora guiam-nos através da estreita estrada em terra batida que serpenteia a montanha, até ao cume das suas terras. É lá, a mais de 900m que cresce lentamente o arbusto do chá vermelho. O solo conhecido por sunstone, é muito rochoso e arenoso o que cria o filtro perfeito para alimentar as raízes que chegam a atingir os dois metros de profundidade. "O rooibos não gosta de muita água e quanto mais devagar crescer melhor sabe", acentua Charl. Por isso é que a sua cultura só se dá num raio de 100km de diâmetro a partir do centro das montanhas Cederberg, numa zona onde o sol ganha à chuva durante quase todo o ano, chegando as temperaturas a atingir os 40 graus com muita frequência.

Uma vez chegados lá acima, a vista é deslumbrante. Há uma imensa vegetação verde e pequenas flores e palmeiras que brotam das encostas montanhosas. Não fossem os regos tão alinhados, pareceria que o rooibos continuava a nascer de forma selvagem sem a ajuda humana. Leonie aproxima-se para nos contar que mais difícil do que plantar o chá é colhê-lo, em Janeiro. Nessa altura os van der Merwe contratam mais de uma dezena de trabalhadores - a maioria descendentes de bushmans - para ajudar na apanha, realizada ainda de forma tradicional e artesanal. Isto é, apenas com a ajuda de uma foice. Dada a ordem, rapidamente alguns homens e mulheres de caras exóticas e pele escura que até aí nos miravam de longe com curiosidade, aproximam-se e começam a ceifar os arbustos do meio para baixo, fazendo pequenos molhos que aconchegam entre as pernas. "É uma vida difícil", salienta Charl, enquanto observa com atenção os gestos dos seus empregados.

Concluída a visita às plantações, Charl ainda tem um último convite para nos fazer. Provavelmente sem querer, coloca agora um ar ainda mais orgulhoso e pergunta se não queremos andar cerca de 300 metros a pé para ir ver um dos tesouros escondidos da sua herdade: uma caverna com pinturas rupestres dos bushmans. Aceitamos, claro. Será o cenário ideal para fecharmos a visita a um lugar mágico, cheio de história e beleza natural, que dá ao mundo um chá diferente, também apelidado de A Erva da Eternidade.

O que é o chá de rooibos? Correctamente não se deveria chamar chá mas infusão (não contém cafeína nem teína) que tem origem nas folhas das plantas da espécie Aspalathus linearis, provenientes das regiões montanhosas da África do Sul e cultivado exclusivamente na região montanhosa de Cederberg.

Quais os seus benefícios? A sua composição única em antioxidantes faz de Rooibos o único alimento fornecedor de aspalatina e um dos dois únicos fornecedores de notofagina, que previnem o envelhecimento celular. Por isso é conhecido como "Erva da Eternidade". O seu consumo em expresso tem três vezes mais antioxidantes do que uma infusão de chá verde ou chá preto, como comprova um estudo da Escola Superior de Biotecnologia, da Universidade Católica do Porto. Isento de substâncias excitantes, quando tomado quente assume um efeito relaxante, benéfico contra a irritabilidade, insónia e depressão. Como não fornece teína não actua negativamente sobre o sistema nervoso, podendo ser consumido por pessoas de todas as idades. É benéfico para a saúde do coração pois além de rico em fitoquímicos protectores fornece ainda sais minerais, como o cobre, cujas funções no controlo dos níveis de colesterol e da pressão arterial fazem dele um mineral chave na protecção cardiovascular. Tem uma baixa concentração de taninos pelo que não dificulta a digestão e a absorção de nutrientes, como o ferro, nem causa obstipação, contra a qual pode ser benéfico.

Qual o sabor de rooibos? Tem um paladar adocicado, com um pequeno travo a frutos secos. Assim, não precisa de açúcar, logo não aumenta o valor energético/calórico à alimentação e pode ser consumido por diabéticos.