Sócrates aumenta deduções fiscais no IRS
02.07.2008 às 22h33
Acusado de insensibilidade social, Sócrates vai aumentar as deduções no IRS para as famílias com menores rendimentos. E não trava as obras públicas para não "comprometer o futuro". Quanto ao tabu, acabou: O PM recandidata-se.
"Havia um político que dizia: nós sabemos o que devemos fazer, só não sabemos se somos reeleitos. Eu diria que só fazendo o que devemos fazer é que podemos ser reeleitos". Acabou-se o pequeno tabu de José Sócrates. O primeiro-ministro, que não gosta de faltar ao dever, irá recandidatar-se em 2009. Só não o diz agora preto no branco porque "há momentos para tudo e essa é uma decisão a tomar no Congresso do PS".
Em entrevista à RTP, um dia após a de Manuela Ferreira Leite à TVI, Sócrates antecipou uma novidade que tinha guardada para o debate do estado da Nação da próxima semana, e mostrou como pensa combater a nova líder do PSD.
"Vamos aumentar significativamente as deduções fiscais no IRS em despesas de habitação para as famílias com menores rendimentos", anunciou o primeiro-ministro, mas as benesses fiscais não se ficam por aqui. O Governo vai baixar o IMI - Imposto sobre Imóveis -, e com as duas medidas propõe-se reduzir os encargos fiscais das famílias a quem continua a recusar qualquer baixa no IRS, IVA ou IRC. "Isso seria uma aventura".
Acusado de insensibilidade social, Sócrates não negou as crescentes dificuldades da classe média mas mostrou-se indisponível para ser complacente com queixumes. "Estamos a viver uma crise que não esperávamos e temos que combatê-la com coragem, esperança e energia. O Governo não pede nada aos portugueses que eles não tenham que dar. (...) Compreendemos as dificuldades das famílias portuguesas, como as das famílias espanholas ou francesas", afirmou.
Quanto à proposta mais mediática da recém-eleita nova líder do PSD - reavaliar a oportunidade das grandes obras públicas na agenda do Governo, Sócrates rejeitou-a em absoluto: abandonar os projectos previstos "era comprometer o futuro e fazer esse discurso é promover a inacção".
Apontando as baterias aquele que costuma ser considerado o ponto forte de Manuela Ferreira Leite, o PM foi implacável: "é preciso seriedade e quem assumiu o compromisso com Espanha de fazer quatro linhas do TGV foi o anterior Governo (de Durão Barroso)", lembrou. Agora, "se alguém está contra, que diga quais as obras que devemos parar. Isso é que é coragem".
Num tom distendido e confiante, apesar do difícil momento político que atravessa, José Sócrates enalteceu os resultados da sua governação - controlo das contas públicas, combate ao desemprego, apoios sociais a idosos e crescimento da economia -, para concluir: "em tudo o que dependia do Governo obtivemos bons resultados". Com o efeito combinado das crises petrolífera, do sistema financeiro e alimentar, o vento mudou - "surgiu uma nova crise que não esperávamos" - mas, aparentemente, o PM socialista está confiante na capacidade de estancar a queda do Governo. A confiança é, pelo menos, a arma com que mais confessou contar até às legislativas.
Sobre a subida do PCP e do BE nas sondagens, acusou os comunistas de quererem "o Céu na Terra", ignorou o Bloco e, ao novo PSD, reservou um ar de desdém: "nunca me sinto ameaçado por outras lideranças". Pelo sim, pelo não, ao fim de alguns meses de suspense, José Sócrates achou por bem anunciar que sente "o dever" de arriscar a reeleição. Se com maioria absoluta ou não, não disse. Nem lhe foi perguntado.