Acordo ortográfico

"Ninguém será abatido, preso ou punido se não aderir"

19 agosto 2008 21:53

O ministro da cultura José Ribeiro reuniu-se hoje com o seu homólogo brasileiro Juca Ferreira para acertar projectos com vista a uma política comum baseada na Língua Portuguesa que cause um "maior impacto e melhor efeito".

19 agosto 2008 21:53

Os ministros da Cultura de Portugal e do Brasil reuniram-se hoje, em Brasília, para acertar projectos para o desenvolvimento de uma política comum da cultura baseada na Língua Portuguesa.

"Queremos criar práticas e políticas culturais que nos aproximem daquilo que cada um de nós é, que facilitem o nosso conhecimento, a nossa relação, a nossa expansão, partindo do desenvolvimento da língua enquanto instrumento de liberdade e de expressão e instrumento de identidade", disse à agência Lusa o ministro português.

Na avaliação de José António Pinto Ribeiro, uma política de articulação causa "maior impacto e melhor efeito".

"Eu farei tudo o que puder politicamente para que nós consigamos aprofundar o conhecimento da Língua Portuguesa e a sua divulgação enquanto língua de instrução, de comércio, de contacto, de relação, de identidade e de expressão", sublinhou.

Questionado, entretanto, sobre as resistências que existem em Portugal em relação ao Acordo Ortográfico, o ministro disse que este movimento não é tão forte.

"Há resistências de algumas pessoas, e não são muitas, que têm uma relação emocional, clássica, física e sensorial com a Língua. Mas ninguém será abatido, preso ou punido se não aderir às novas normas. O Acordo é uma simplificação da Língua", assinalou.

Pinto Ribeiro lembrou que em Portugal a palavra "mãe" foi escrita com 'e' até 1931, desta data até 1946, a grafia passou a ser com 'i', voltando depois a palavra a ser escrita com 'e'.

"E a mãe era sempre a mesma. Não mudou. Se nós queremos ter um instrumento de política comum de toda Língua Portuguesa nas organizações internacionais, nas relações com outros países como segunda língua, temos que ter uma escrita comum", explicou.

Na avaliação do ministro português, o Acordo Ortográfico fortalece a cooperação entre os países de Língua Portuguesa e também beneficia as diásporas na manutenção e conservação da sua identidade.

"Neste momento, nós percebemos não só que o Brasil é muito maior, mais importante, mais rico e mais poderoso do que nós mas que, independentemente das dimensões e dos tamanhos, somos, todos os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, iguais", destacou. Nesta perspectiva, Pinto Ribeiro defendeu uma política concertada em que "se evite a redundância e se obtenha uma grande eficácia na actuação".

Nova política para o património

Quanto à nova política do governo português para o património, o ministro instou as empresas lusas instaladas no Brasil a participarem no projecto.A proposta inspira-se em soluções adoptadas em outros países europeus que cobram uma taxa sobre todas as empreitadas de obras públicas, montante que se destina ao restauro do património classificado.

"Como não há uma conjuntura económica favorável em Portugal para o lançamento de uma taxa, pensamos ser possível pedir aos empresários que, voluntariamente, entreguem esses valores em obras, usando os seus recursos já instalados, para fazer o restauro do património imobiliário", explicou.

Pinto Ribeiro disse que, ao mesmo tempo, o governo pretende recuperar o património não material, a memória e investir na digitalização de livros. "As empresas portuguesas instaladas no Brasil que quiserem colaborar serão muito bem-vindas", salientou.

Um portal da Língua Portuguesa na Internet deverá ser criado até o final deste ano, disse hoje o novo ministro brasileiro da Cultura. "Demos hoje um passo importante, na medida em que os dois ministros concordaram sobre a importância deste portal, cuja criação já foi decidida no âmbito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Vamos agora disponibilizar os meios e criar os mecanismos de realização", afirmou Juca Ferreira.

Na avaliação do ministro brasileiro, é importante incorporar no projecto todos os países da Comunidade - Angola, Brasil , Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste - para que o portal "capture toda a diversidade do mundo que fala Português". O projecto, proposto pelo Brasil, tem um custo avaliado em um milhão de euros.

"Notamos que houve uma mudança de atitude de Portugal, de interesse numa parceria cultural com o Brasil numa intensidade até então não colocada nas relações bilaterais", salientou ainda Juca Ferreira.

De acordo com o governante, há hoje uma grande proximidade de pontos de vista entre os governos brasileiro e português, que prezam o respeito e o tratamento igualitário de todos os membros que fazem parte da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

Juca Ferreira disse que compreende as resistências que existem em Portugal e, em menor grau, no Brasil, quanto ao Acordo Ortográfico, mas frisou a sua importância. "A Língua é um património vital e a dimensão mais importante da expressão humana e é natural que existam resistências quanto ao Acordo. Mas as diferenças entre o Português que se fala no Brasil e em Portugal não justificam mantermos a separação e o isolamento, ainda mais num mundo globalizado", referiu.

Na avaliação do novo ministro brasileiro da Cultura, "fortalecer a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e, portanto, a Língua Portuguesa, é essencial para a sobrevivência e, mais do que isso, para o desenvolvimento dos países-membros".

Juca Ferreira não acredita que, com o Acordo Ortográfico, o Brasil possa "engolir" o mercado editorial português. "Acho difícil. Acredito mais na possibilidade de cooperação, não só entre Brasil e Portugal, mas de todos os países de Língua Portuguesa, para criarmos um espaço para a literatura dos nossos países neste mundo editorial", concluiu.