João Bénard da Costa: O senhor cinema
21.05.2009 às 14h07
Foi o mais importante divulgador e defensor do cinema em Portugal. Com a sua morte pode dizer-se que a cinefilia em Portugal fica órfã. Veja o primeiro artigo de João Bénard da Costa publicado no Expresso
Com a sua morte pode dizer-se que a cinefilia em Portugal fica órfã.
Os cinéfilos recordam bem o trabalho desenvolvido naquele organismo, onde foi responsável por uma série de ciclos memoráveis que deram a descobrir pela primeira vez entre nós a obra existente de autores como Alfred Hitchcock, Fritz Lang, John Ford, Carl Dreyer, Luís Buñuel e muitos outros.
Mas no campo do cinema o seu trabalho como divulgador vem de mais longe, da altura em que, exercendo funções na Fundação Calouste Gulbenkian, organizou, nas suas salas, uma série de ciclos que se tornaram lendários entre os cinéfilos, desde a retrospectiva dedicada a Roberto Rossellini, com a presença do realizador, ainda antes do 25 de Abril, e, mais tarde, os grandes ciclos dedicados ao cinema americano dos anos 30 (1977), 40 (1979) e 50 (1981), que abriram as portas da cinefilia para tantos curiosos. E mais tarde, já em funções na Cinemateca, os grandes ciclos sobre o cinema de Ficção Científica e o Musical, todos acompanhados por catálogos que se tornaram elementos de consulta obrigatória.
O seu trabalho como divulgador passa também pela crítica (as populares "folhas" da Cinemateca a que deu um cunho inconfundível e um estilo que deixou marcas), pela história (Histórias do Cinema Português) e pela crónica cinematográfica ou não (os seus textos sobre música e pintura são particularmente apaixonantes) que publicou nos jornais "Independente" e "Público": "Muito Lá de Casa", "Os Filmes da Minha Vida" (reunidos em volumes), "A Casa Encantada", que foi a sua última colaboração para a imprensa.
Esta actividade "militante" levou-o também à defesa e ilustração do cinema português, em especial o novo, impondo (ou revelando) muitos nomes das mais recentes gerações. A ele se deve grande parte da "revisão" que foi feita à obra de Manoel de Oliveira, contribuindo para o seu conhecimento nacional e internacional, sendo também presença frequente nos filmes do mestre com o nome de Duarte de Almeida desde "O Passado e o Presente" até ao pequeno segmento de "Cada Um o Seu Cinema", que se encontra em exibição. E também o reconhecimento de autores como João César Monteiro.
O trabalho João Bénard da Costa não se limitou ao cinema. Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas, mas com a carreira universitária impedida pela PIDE, ele foi um dos fundadores da revista "O Tempo e o Modo", uma das mais influentes do seu tempo (década de 60) sobre os intelectuais.
A João Bénard da Costa foi concedido o prestigiado Prémio Pessoa em 2001, e possuía as comendas de Officier des Arts et des Lettres de França e a Ordem do Infante D. Henrique. Em Setembro do ano passado o ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro condecorou-o com a medalha de Mérito Cultural.
Veja o primeiro artigo de João Bénard da Costa publicado no Expresso