Siga-nos

Perfil

Expresso

Atualidade / Arquivo

Genéricos dão muito mais lucros

11.04.2009 às 16h16

Marcas brancas permitem às farmácias ter maiores ganhos do que com os medicamentos originais.

João Cordeiro pode ser um grande defensor do bem-estar e da carteira dos doentes, mas é muito mais amigo do lucro das farmácias. Quem está no terreno garante que o verdadeiro móbil do presidente da Associação Nacional das Farmácias (ANF), ao lançar a campanha a favor dos genéricos para reduzir a factura dos consumidores, foi apenas um: ganhar mais dinheiro.

Em vez de fazerem promoção junto dos médicos, trabalho que é há muito feito pelas indústrias de originais, os laboratórios que produzem genéricos apostam em grandes descontos junto das farmácias, que assim aumentam os lucros. Como? Optando por não repercutir nos preços promoções negociadas com as empresas, que vão desde reduções de 5% a 15 % na parcela não comparticipada do preço, até bónus de 100 ofertas na compra de 50 embalagens. "Faria sentido replicar estes descontos nos utentes", admite Paulo Lilaia, presidente da Associação de Medicamentos Genéricos.

Os interesses de Cordeiro não terminam aqui. O bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes, afirma que "a ANF prepara-se para entrar no sector da produção através de uma marca própria de genéricos". O negócio remonta a 2005, quando a ANF adquiriu 49% da Alliance Healthcare - líder na distribuição de remédios em Portugal e com uma facturação de €650 milhões - , e que se prepara para iniciar a produção de genéricos com o nome Almus. Fontes do Governo sabem que os locais de fabrico estão em negociação e devem incluir uma unidade em Coimbra, onde a ANF também tem uma participação.

Estas informações são conhecidas pela ministra da Saúde, Ana Jorge, e serviram-lhe para afirmar que esta era apenas uma guerra comercial para a ANF vender os seus remédios. O bastonário dos médicos, elogia-a: "Pela primeira vez, temos um ministro que diz aos portugueses o que está a acontecer". João Cordeiro, tentou minimizar a questão, lançando a dúvida sobre "quem são os maiores clientes das agências viagens", em entrevista à SIC Noticias. Uma alusão às supostas viagens de médicos pagas por laboratórios. Contudo, a Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo garante que "essas afirmações não têm fundamento por que não existem dados sobre esse assunto".

João Cordeiro recusou dar explicações ao Expresso, incluindo sobre a acusão de que a sua farmácia - Farmácia das Fontainhas em Cascais - violou a lei do receituário médico e até as regras deontológicas dos farmacêuticos, impedidos de substituir o medicamento prescrito pelo médico quando a receita 'está trancada' (com uma cruz). O líder da ANF permitiu que a sua farmácia desrespeitasse a imposição, como prova uma receita a que o Expresso teve acesso. Pode agora ser processado.

Os médicos garantem que o impacto desta medida pode ir além dos preços. Muitos doentes conhecem os medicamentos pela forma e pela cor e uma alteração pode ser grave. Dizem ainda que o genérico nem sempre é opção por razões psicológicas do doente, como o facto de associarem o efeito terapêutico à marca que conhecem. O pedido de um remédio mais barato deve ser feito ao médico, que tem essa obrigação deontológica. Mas, João Cordeiro alega que "há interesses contraditórios na própria legislação" e avisa que as farmácias vão continuar a revelar a poupança possível com os genéricos, agora sem alterar as receitas médicas. A bastonária da Ordem dos Farmacêuticos, Elisabete Faria, afirma-se contra a campanha de Cordeiro, e diz que "talvez ainda seja possível juntar os parceiros para uma negociação".

A ministra da Saúde assistiu à 'guerra' entre farmácias e médicos durante uma semana e depois fez a intervenção certeira. Ao decidir que não pagava as comparticipações dos medicamentos substituídos pelo genérico sem que houvesse autorização do médico revelou os interesses económicos da medida defendida pela ANF.